| Caso
Limdemberg e os Direitos Humanos
Muito já se falou sobre o caso Lindemberg e do seu
trágico desfecho. Em virtude desse desenlace surgiram,
como sempre surgem, os “especialistas” de plantão,
que apontaram os diversos equívocos da atuação
da polícia.
Entre tantos equívocos apontados, o que mais me chamou
a atenção foi o da polícia não
ter disparado quando Lindemberg apareceu na janela.
Acusou-se a polícia de ter agido, ou melhor, de não
ter agido, em função dos “defensores
dos Direitos Humanos” que, como todo o Brasil, acompanhavam
o episódio. “Por que simplesmente não
abateram o seqüestrador”? “Se assim tivessem
agido poderiam ter evitado a morte de Eloá Cristina
Pimentel, a vítima de apenas 15 anos de idade”,
diziam essas vozes sedentas por sangue.
A nossa sociedade doentia clamava pela execução
sumária do jovem seqüestrador, e os nossos “especialistas”
convenientemente esqueciam do episódio do ônibus
174 e de tantos outros, resultantes de desastrosas interversões
policiais.
Esqueceram que a polícia não tem o poder divino
da vida e da morte. Esqueceram também que a polícia
representa o Estado, que por sua vez é regulado pela
Constituição Federal, que garante os direitos
fundamentais de todos nós.
De todos nós. Policiais, vítimas e bandidos.
Todos nós, seres humanos.
Direitos que devem existir para todos. Direitos que ao contrário
do que se diz por aí afora, são para todos
aqueles que pertencem à raça humana. E quem
é contrário aos "direitos humanos"
é contra os seus próprios direitos. Ou talvez
seja algum alienígena que veio de outro planeta.
Nada justifica o crime bárbaro cometido, mas devemos
ir mais fundo na questão, e ao invés de culpar
os “direitos humanos” deveríamos repensar
a nossa própria sociedade.
Isso porque o seqüestrador não era alguém
que vivia do crime, e sim um jovem trabalhador. A questão
é muito mais complexa, os crimes passionais se repetem,
e a solução não está nas mãos
da polícia, que por mais impiedosa e infalível
que um dia possa ser, não vai conseguir evitar que
pessoas enfermas cometam crimes passionais.
Em resumo, qualquer que fosse o resultado do triste episódio,
surgiriam os “especialistas”, para criticar
a ação, ou a omissão da polícia.
Mas por que não surgem “especialistas”
para criticar a nossa sociedade cada vez mais consumista,
individualista e superficial? Por que não criticam
a falta de limites, a nossa falta de educação
para viver em sociedade?
Nossa sociedade é doentia porque somos doentes. Porque
ao invés de tratar as causas, preferimos sentar no
sofá e torcer para que um tiro tire a vida de um
jovem doente. Um tiro capaz de matar também nossos
recalques, nossas frustrações, nossos fracassos,
nossas angústias...
Marcelo
Gabriel Pibernat
Comissão
de Direitos Humanos
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